Lideranças (ou falta de) hoje
Maria Clara Lucchetti Bingemer
Liderança é o processo de conduzir um grupo de pessoas. É a habilidade de motivar e influenciar os liderados para que contribuam, voluntariamente, da melhor forma com os objetivos do grupo ou da organização.
A liderança ou o processo de formar e suscitar líderes tem sido tema de pesquisas nos mais diversos campos do conhecimento humano desde a década de 30. Embora houvesse muitos livros e artigos ilustrando a "boa" liderança antes deste período, tais obras eram, principalmente, teorias filosóficas . Relevavam mais do campo teórico do que prático.
Com o passar do tempo, a pesquisa e a literatura sobre liderança evoluíram de teorias que descreviam traços e características pessoais dos líderes eficazes, passando por uma abordagem funcional básica que esboçava o que líderes eficazes deveriam fazer, e chegando a uma abordagem situacional ou contingencial, que propõe um estilo mais flexível, adaptativo para a liderança eficaz.
Dessa forma, pode-se definir liderança como o processo de dirigir e influenciar as atividades relacionadas às tarefas dos membros de um grupo. Porém, existem três implicações importantes nesta definição.
Primeira: a liderança envolve outras pessoas, o que contribuirá na definição do status do líder. Segunda: a liderança envolve uma distribuição desigual de poder entre os líderes e os demais membros do grupo. E terceira: a liderança é a capacidade de usar diferentes formas de talento e preponderancia para influenciar de vários modos os seguidores.
De fato, os líderes arrastam e influenciam seguidores. Por este motivo, têm por obrigação considerar a ética de suas decisões. E também o exemplo que dão no ato de liderar. Apesar de a liderança ser importante para a gerência e estreitamente relacionada a ela, liderança e gerência não são conceitos intercambiáveis. Planejamento, orçamento, controle, manutenção da ordem, desenvolvimento de estratégias e outras atividades fazem parte do gerenciamento. Gerência tem mais a ver com o fazer, enquanto a liderança é mais do domínio do ser. Fazer coisas acertadas significa ser um bom gerente, enquanto ser um bom líder implica em ser de determinada maneira e configurar um certo perfil.
Uma pessoa pode ser um gerente eficaz, um bom planejador e um gestor justo e organizado e, mesmo assim, não ter as capacidades motivacionais de um líder. Ou simplesmente pode ocorrer o contrário. Uma pessoa pode ser um gerente ineficaz, porém, em contrapartida, ter as habilidades necessárias para um bom líder.
Em seu livro El liderazgo al estilo de los jesuítas [1] Chris Lowney, ex-jesuíta e experiente executivo do banco de investimentos JP Morgan, revela-nos, em um relato cheio de exemplos, os princípios que guiaram os líderes jesuítas em suas diversas atividades durante mais de 450 anos.
Por que prosperaram e prosperam os jesuítas? É a pergunta chave que o autor, atualmente consultor da Catholic Medical Mission Board de Nova York, tenta responder. Segundo Lowney, os jesuítas desprezaram o estilo de liderança pomposa para concentrar-se em quatro valores verdadeiros como substância da liderança: conhecimento de si mesmo, inteligência, amor e heroísmo. Em outras palavras, Inácio do Loyola e seus seguidores municiaram seus aprendizes para que triunfassem, formando-os como líderes que “entendessem suas fortalezas, suas debilidades, seus valores e tivessem uma visão do mundo; inovassem confiadamente e se adaptassem a um mundo cambiante; tratassem ao próximo com amor e uma atitude positiva; e se fortalecessem a si mesmos e a outros com aspirações heróicas”, assinala o autor.
Um aspecto não menos importante, indica Lowney, é que os jesuítas formavam a todos os noviços para liderar e chefiar, convencidos de que toda liderança começa por saber liderar-se a si mesmo. E estes princípios se aplicam a tudo. “Podemos ser líderes em tudo o que fazemos: no trabalho e na vida diária, quando ensinamos e quando aprendemos de outros; e quase todos fazemos todas estas coisas no decurso de um dia”, diz o Autor.
Na perspectiva do autor, a inovação mais visionária e influente dos jesuítas parece quase óbvia ou inevitável. Antes dos jesuítas já existiam escolas e redes de escolas, “mas nenhuma organização tinha instalado antes uma em tão grande escala e com tanta imaginação”, comenta o autor. Em seu texto, Lowney diz que as empresas globais ainda lutam por incorporar em seus negócios certas práticas que foram típicas das escolas jesuítas faz quatro séculos: reunir um pessoal multifuncional, gerenciar através das fronteiras, idealizar e fazer circular incansavelmente as melhores práticas, e diferenciar-se dos competidores mediante o compromisso de entregar um produto de qualidade total.
Embora a ordem religiosa carecesse de um plano, produto e capital, muito mais valioso foi o fato de que os fundadores “tinham, sim, dedicação incondicional a um modo exclusivo de trabalhar e de viver, a uma vida na qual se integravam os princípios da liderança, quer dizer, o conhecimento de si mesmos, a inteligência, o amor e o heroísmo”.
Lowney esclarece que nem Inácio de Loyola nem os seus entendiam aquilo que faziam como princípios de liderança, tal e como hoje em dia usamos esses termos. Tomados pelo chamado de Deus de forma totalizante para suas vidas e reforçados por uma prática constante, tinham-nos como um modo de proceder, uma atitude integral frente à vida. Por isso, chama a atenção o fato de que não são as organizações ou as empresas, mas sim as pessoas as que têm consciência de si mesmas, e não são as organizações, mas sim os seres humanos os que têm amor. Liderar é uma eleição pessoal”. Tomando o exemplo de Inácio de Loyola, o autor recorda que este atraiu alguns dos melhores talentos da Europa, não por sua inteligência superior nem com “um plano atrativo de negócios”. O grande atrativo do fundador da ordem estava em sua habilidade para ajudar a outros a tornar-se líderes. “Sua maneira de dirigir seus companheiros fundadores serve de modelo para a organização: todos têm potencial de liderança e os verdadeiros líderes abrem esse potencial para outros”.
Quanto ao princípio do heroísmo, o Lowney expõe que aquele não se media pela escala das oportunidades que se apresentavam aos jesuítas”, mas sim pela qualidade de sua resposta a elas. “Os líderes heróicos não esperam até que chegue o grande momento: lançam-se a captar a oportunidade que esteja a seu alcance e extraem dela a maior riqueza possível. O heroísmo está na nobreza de comprometer-se com uma maneira de viver que se concentra em metas maiores que nós mesmo”.
Arrancar de raiz todo provincianismo, temor do desconhecido, apego a sua posição ou suas posses, prejuízos e aversão ao risco, é o que a inteligência obtém das pessoas, sustenta Lowney. “Livrando-se de afeições desordenadas que poderiam impedi-los de expor-se ao risco ou à inovação, o futuro líder prepara-se para lançar-se criativamente sobre as novas oportunidades”.
“O amor comunica determinação, fidelidade e paixão à inteligência e ao heroísmo”, afirma o autor, admitindo que seja fácil entender como um espírito de amor pode beneficiar a uma ordem religiosa dedicada a ajudar às almas. Mas, ainda segundo Lowney este amor faz a “todas” as empresas mais fortes. Como? “O amor permite a uma organização acolher todos os talentos, sem preocupar-se com sua religião, cor, posição social ou créditos. O amor é o gozo de ver sobressair aos membros da equipe.” Lowney sentencia que os líderes movidos pelo amor vivem com a premissa de que só se dá o melhor de si quando se trabalha para pessoas que oferecem genuíno apoio e afeto.
Lowney postula que o que descobre quem é, o que quer e o que defende já deu o primeiro passo para a liderança heróica. Em sua tese, essa é a essência do conhecimento de si mesmo, princípio que segundo o autor, “enraíza e nutre as demais virtudes”. Acrescenta que não é um projeto que se leve a cabo de uma só vez. “Não menos importante que a avaliação inicial que alguém faz de suas fortalezas, suas debilidades, valores e visão, é o hábito diário de reflexão sobre suas reações e atitudes, o chamado exame de consciência”.
Para o autor, o conhecimento de si mesmo “é o prelúdio de um frutífero trato com o mundo e uma liderança maior e heróica”. Por isso, destaca que os líderes escolhem o impacto que querem produzir quando adotam um modo pessoal de proceder. O ex executivo da JP Morgan expõe que qualquer que seja a missão que escolham - seja "ajudar às almas", educar novas gerações, compor uma sinfonia ou vender apólices de seguros -quem vive à maneira da liderança jesuíta sustenta quatro princípios: entender suas fortalezas, debilidades, valores e pontos de vista sobre o mundo; inovar confiadamente e adaptar-se para acolher um mundo cambiante; tratar a outros com uma atitude positiva, amorosa; e fortalecer-se a si mesmo e a outros com aspirações heróicas.
Desta maneira, o futuro líder deve concentrar-se no que é possível, no futuro. O ex-jesuíta escreve que os líderes movidos por amor procuram o potencial em si mesmos e em outros. “Os líderes heróicos se propõem dar forma ao futuro em vez de agüentar com paciência o que suportam do presente. E os líderes movidos pela inteligência descobrem maneiras de converter o potencial humano em realização e a visão de futuro em realidade”.
A modo de conclusão, Lowney reconhece que toda liderança comporta riscos, mas diz que para os primeiros jesuítas este foi maior, porque seguir a Inácio de Loyola significava correr o risco de um líder e uma visão não provados nem legitimados pela autoridade competente. Ao contrário, os que hoje adotam esse caminho têm algo mais em que apoiar-se, explica. “Desde então até hoje, a fórmula inaciana de liderança foi posta à prova em múltiplas gerações e em diversos continentes e culturas. É a integração dos quatro pilares essenciais que garante sua permanência em vida até os dias de hoje”.
Que essa reflexão desse talentoso ex-jesuíta e ex-banqueiro nos ajude a encontrar respostas para perguntas que nos intrigam a cada dia: Por que há esse vazio de lideranças em volta de nós? Por que cada pessoa que aparece com uma idéia logo se perde no afã do poder e do apego às próprias idéias e às próprias conquistas? Por que há tanta falta de amor heróico, ética desinteressada e gratuita, inteligência aplicada realmente ao bem maior e mais universal?
Se conseguirmos encontrar pelo menos em parte a resposta a essas perguntas, talvez estejamos dando um primeiro e tímido passo para transformar esse mundo tão desgovernado e carente em que vivemos. Não temos líderes que ocupem o horizonte hoje. Talvez porque esteja nos faltando enquanto humanidade os quatro pilares essenciais mencionados por Chris Lowney.
* Maria Clara Lucchetti Bingemer, teóloga, professora e decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio, e Diretora Geral de Conteúdo do Amai-vos. É também autora de "A Argila e o espírito - ensaios sobre ética, mística e poética" (Ed. Garamond), entre outros livros.
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